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HISTÓRIA

Publicada em 04/08/2025 às 14:55h - 148 visualizações

por JB FERREIRA


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CALMON EM DIA FRIO  (Foto: JB)

                       O INTERIOR DE SERRA ACIMA.

 

       No século 19, no interior de Serra acima, propriamente entre União da Vitória e a região de Curitibanos, a mata era densa, a erva mate era o ouro verde da época. Em São João dos Pobres, no “Quilombo” do Rocio, os ex-escravos, libertos das fazendas da região, viviam naquele local, ao lado de familiares e demais amigos. A sobrevivência dos moradores do Rocio estava baseada em produtos colhidos das pequenas plantações, nas “roças de tocos”. Nestes locais, era cultivado, milho, feijão, abóboras de várias espécies, pepinos, mandioca, batata – doce, inhame, batatinha, além de saladas, um dos produtos mais cultivados era a couve.

A erva-mate era em abundância, o famoso mate não faltava. Pinhão, “caia” das araucárias igual chuva, devido aos milhares de árvores de araucárias existentes, onde o pinhão era um dos principais alimentos, para o homem e animais. Porcos engordavam soltos nos capões de pinheiros. Muitos dos negros que ali viviam, trabalhavam também nas lavouras da região, ou cortando “toras” para as pequenas serrarias mata adentro. Quando retornavam do trabalho, se banhavam no pequeno riacho, conhecido por Rocio e, depois sentavam-se a ao lado das casinhas cobertas de tabuinhas lascadas, onde a conversa “rolava” solta.

O ponto principal das conversas eram as constantes visitas do “monge” João Maria de Agostinho, ele, quando visitava o pequeno povoado contava das novidades e o que estava descrito nas escrituras (bíblia). Entre as novidades, ele falava do famoso “carreiro” (estrada) do “dragão de fogo”, que com o tempo o povo conheceu, era o trem de ferro. Dizia João Maria, aos moradores do Rocio:

_Em breve, todos estarão “morando” a beira do carreiro do dragão de fogo, muitas mortes acontecerão, mas vocês não serão atingidos!

João Maria continua aconselhando e comenta:

 _O dia que a igreja cair e o cemitério for abandonado, São João vai “parar no tempo”.

            Os moradores com mais idade contavam estas e outras histórias, das constantes visitas do monge pelo povoado. Enquanto conversavam, as mulheres preparavam a comida no fogão de barro, em panelas de ferro escurecidas pela fumaça do fogão. A mesma fumaça dava cor e sabor aos toucinhos, costelas de porco e linguiças penduradas em varas acima do fogão onde eram defumadas. Os tropeiros abasteciam as chácaras, fazendas e pequenos posseiros com mantimentos, em troca levavam charques e grãos.

 

O sol da tarde “começava a se esconder” nas montanhas de São João, as velas feitas de sebo, (gordura animal), com pavio feito de tiras de panos de velhas roupas, começavam a se acender e “clarear” os ambientes dos velhos e escurecidos ranchinhos. Os compadres e amigos (as) se despediam e, a família sentava em banquetas feitas de pequenos pedaços de toros de pinheiro, em uma cozinha de chão batido, à beira de um fogo de chão. Neste local, a conversa continuava, conselhos eram repassados, e como foi o dia de cada um, mas a apreensão era grande, já que não sabiam nada das “grandes” cidades e povoados.

            Durante a conversa, o cheiro do bacon frito, da quirera cozida, feijão, batata doce assada, e a couve frita preenchiam o ambiente simples, mas amado pela família. A comida típica, além do feijão com arroz, couve frita, tinha também a ministra que era a mistura do arroz com feijão e temperos diversos. os caboclos herdaram a questão da reza em grupos, acreditando principalmente nos conselhos de São João Maria, dos remédios, tipo o chá de vassourinha, chá de "concorósa", árvore com folhas espinhentas.

Chá de macela, conhecida popularmente pelo caboclo como marcela, indicado para dores de barriga, convulsões entre outros males.

a cultura à dança cabocla está entre elas, com o uso do violão principalmente para animação. A gaita foi entrando aos poucos, com a cultura gaúcha. Até os dias de hoje, a dança é um dos meios de diversão sempre que necessitam de informações sobre o passado histórico dos municípios catarinenses, em especial dos menores, verifico como são precárias e incompletas.

Enéas Athanázio cita o Grupo Resgate.

 

Com raras e honrosas exceções, elas não passam do essencial, das linhas gerais, sem fornecer detalhes importantes e as indispensáveis fontes para aprofundar as pesquisas.

 

Isso é lamentável, mesmo porque, á medida que os dias, os meses e os anos escoam para o poço sem fundo do Tempo, as fontes vão se esvanecendo e até mesmo desaparecem. Para completar muitos municípios não dispõem de arquivos públicos organizados para resguardar sua documentação dos efeitos implacáveis dos anos.

 

E, no entanto, muitas dessas pequenas comunidades têm uma história interessante, repleta de eventos curiosos e de personalidades instigantes, algumas delas de expressão regional e até estadual.

 

Caso bem típico é Calmon, antiga Osman Medeiros, plantada ás margens da extinta Rede Viação Paraná - Santa Catarina, antes são Paulo Rio Grande, e que abrigou uma das sedes da Southern Brazil & Colonization Company, pertencente ao célebre Sindicato Farquhar e depois incorporada ao patrimônio nacional.

 

Esta circunstancia, além de outras, atribuíram a vila, depois distrito e hoje município um caráter singular na história do Planalto norte catarinense. Além disso, o isolamento em que viveu durante longo tempo, à míngua de estradas razoáveis, parecer ter bloqueado o conhecimento e a divulgação de seu passado, inclusive o período do “Contestado’, conflito que testemunhou de perto a foi palco de combates violentos e decisivos.

 

Tudo isso, ou quase tudo, era desconhecido até que veio a lume este livro pioneiro, iniciando o desbravamento dos fatos de Calmon, sua terra e sua gente. Refiro-me a “ A História de Calmon na Guerra do Contestado”, de João Batista Ferreira dos Santos, publicado na série Grandes Reportagens pelo Centro Universitário de União da Vitória (UNIUV).

 

Valendo-se da escassa bibliografia especifica, e, acima de tudo, de longas e pacientes pesquisas junto as fontes primarias e nos próprios locais dos acontecimentos, o autor conseguiu reconstituir com a fidelidade possível a história de Calmon na Guerra do Contestado e, mais que isso, traçou em largas pinceladas a biografia da cidade desde seu nascimento.

 

Como consequência, Calmon pode daqui em diante fornecer aos interessados informações metódicas e coerentes a respeito da cidade e do município, integrando-se ao mapa geográfico da região e do estado, além de contribuir com boa dose de revelações sobre o Contestado. Graças a este livro, Calmon desbravou seu passado que remonta a um século de existência.

 

Atento aos rigores da melhor técnica para captação das informações e aos princípios do novo jornalismo, o Autor se entregou a paciente busca de tudo que pudesse contribuir para o encontro da verdade histórica, submetendo tais elementos os a uma criteriosa filtragem.

 

Para isso, palmilhou o território municipal em busca de pessoas que tivessem algo para o melhor entendimento de algum acontecimento e de vestígios de qualquer espécie.

 

Entrevistou moradores, escritores e jornalistas, tomando sempre as cautelas mais recomendáveis, assistiu a antigos filmes e examinou grande quantidade de documentos e fotografias, cortejando os dados obtidos entre si e com os autores disponíveis.

 

Trabalho exaustivo e prolongado, repleto de duvidas e dificuldades, em especial quando procurou mostrar como era em Calmon no inicio do século passado e como viviam seus moradores naqueles tempos remotos. Mas de todos os óbices foram afastados e o autor alcançou seu objetivo de “tomar a história mais próxima da vida do povo, com uma linguagem clara, simples e rica em emoções”- para repetir suas próprias palavras.

 

Vale anotar que o livro descreve em minúcias, creio que pela primeira vez, vários momentos importantes da historia regional. Assim acontece, por exemplo, com a noticia da ocupação humana nos sertões de Serra Acima, no inicio do século xx; com a chegada triunfal do trem de ferro na colônia Osman Medeiros e suas conseqüências; com a invasão de Calmon por uma horda de revoltosos, liberados por Chiquinho Alonso, um garoto de 17 anos, provocando uma carnificina e incendiando quase toda a vila; o assassinato equivocado do Capitão matos Costa; instalação da Companhia Lumber na vila e o desenvolvimento desmedido do setor madeireiro até a extinção da matéria- prima , araucária, e muitos outros aspectos, inclusive a criação e a constantes atividades do “grupo resgate’, liderado pelo autor. Enfim, ainda que lastreado em pura pesquisa, em muitos pontos o livro tem o sabor do romance histórico.

 

Concluindo, direi que esta obra abre os caminhos para o mais amplo a correto conhecimento de Calmon, sua terra e seu povo, contribuindo de forma especial para preencher lacunas na historia de uma guerra que tão fundo marcou para sempre a alma dos habitantes da região- o Contestado. Estão de parabéns o Autor pelo trabalho realizado e os leitores por contarem daqui em diante com mais uma fonte confiável para sua informação e pesquisa.

 

*Eneás Athanázio é escritor e advogado em Balneário Camboriú SC.

 

23/11/10

 

Calmonenses aplaudem JB

Dia 3 de dezembro, o reitor, o vice-reitor e um grupo de professores da Uniuv foram a Calmon, para o lançamento de uma obra sobre o Contestado naquela região, escrita por João batista Ferreira dos Santos, jornalista formado pela Uniuv. Essa obra foi resultado de seu Trabalho de Conclusão de Curso, orientado pela Prof.ª Angela Maria Farah e com o apoio do Conselho Editorial da Instituição. Em um ambiente muito acolhedor, com a presença de professores e alunos da cidade, vereadores, do Prefeito Alcides Boff e Senhora, do Deputado Reno Caramori, entre outros amigos da cultura e do autor, decorreu o evento. Houve declamações, apresentações artísticas por estudantes, discursos. Estes destacaram a garra e o mérito de JB, em sua escalada estudantil e profissional, e sua atitude sempre coerente e digna.

Após a solenidade, houve um jantar muito saboroso, em que os convidados, felizes, puseram a conversa em dia.

Seguem algumas imagens dessa noite histórica, posto que se comemorou a primeira obra sobre a cidade e seu valoroso povo: Grandes Reportagens – A Vida no Conjunto São Bernardo do Campo em Porto União-SC, por Leôncia Pregunta; e A História de Calmon na Guerra do Contestado, de João batista ferreira dos Santos.

Texto: Fahena Porto Horbatiuk

 

 

CALMON 105 ANOS DE HISTÓRIAS E ACONTECIMENTOS

 

No longínquo ano de 1909, centenas de homens ainda trabalhavam na construção da Estrada de Ferro, que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul.

 

A mata virgem a beira da ferrovia, era o paradeiro de muitas empecíeis de animais, além dos índios que acompanhavam de longe aquele movimento de pessoas. No povoado de Osman Medeiros, a Serraria da Lumber serrava sem parar, aos poucos os enormes pinheiros araucárias desciam ao chão pela força dos caboclos que impulsionavam uma serra, o suor “escorria” do rosto cansado, a Lumber esperava a madeira, o guincho estava estacionado esperando o momento para resgatá-las do meio das matas e carregar os vagões.

 

No mês de abril, o frio já castigava o povoado, mas depois de uma forte geada o sol brilhava no céu, muitos estavam ansiosos, pistoleiros exibiam suas carabinas e revolveres calibre 45 em coldres baixos e, chapéu próximo dos olhos (parecia um povoado do velho oeste), naquele dia passaria o Presidente da República pelo povoado. Não demora e o Trem presidencial chega à estação, homens com “grossos” casacos descem dos vagões, retiram crianças e caboclos da plataforma, depois desce um senhor de bigode e óculos, é o presidente Affonso Penna.

 

Miguel Calmon vem em seguida. Os americanos correm cumprimentar o chefe da nação, percorrem o povoado, visitam a enorme serraria da Lumber. Depois da visita retornam para a estação, depois de vários discursos das autoridades presentes, o presidente inaugura o prédio, denominando-a de ESTAÇAO MIGUEL CALMON.

 

Cinco anos depois o povoado é arrasado, se transforma em uma enorme fogueira, Chico Alonso começa a sua vingança.

Dias depois, cinza e ferro retorcido pelo calor, corpos espalhados pelo chão é a visão daquela cidade fantasma. Soldados e pessoas que por ali passaram, viram animais dilacerando o que restava dos corpos de muitos americanos, trabalhadores da serraria, entre eles, muitos inocentes que tombaram naquela tarde de cinco de setembro de 1914.

 

Em 1915 tudo é reconstruído novamente, o COLOSSO da Lumber (serraria), a estação no mesmo padrão, casas, tudo recomeça.

 

A partir dali muitos fatos aconteceu, muita história foi contada a beira de um fogão a lenha nas noites de inverno, ou na varanda das casas nas noites quentes de verão. “Naquele tempo, os jagunços eram muito maltratados, os bandidos da lumbe matavam os homens e abusavam das mulheres, quando não matavam as crianças”, contava meu pai Pedro Ferreira, enquanto assava pinhão na chapa do fogão.

 

O tempo passou, as crianças cresceram, Calmon foi emancipado, chega o ano de 2009, quando se completaram 100 anos da existência da pequena cidade. Em abril de 2014, 105 anos, em dezembro de 2.010, a estrada de ferro completou   100 anos do término da sua construção, os heróis anônimos continuam trabalhando, escrevendo para que a história não morra.

 

Entre eles podemos citar: Nilson Thomé, ( in-memoriam). Delmir Valentini, (Caçador), Fernando Tokarski (Canoinhas), Enéas Athaná zio (Balneário Camboriú), Nilson César Fraga (Curitiba), Elói Tonon, José Fagundes, Sergio Buck, Aluísio Witiuk (Porto União), Vilmar Sassi, Marli Auras, Paulo Derenkoski, Walter Cavalcanti, o cineasta Sylvio Back, Zeca Pires e tantos outros.

 

Dizia uma senhora durante uma entrevista para meu novo livro: “João, ninguém “dá bola” para o que nós falamos, pensam que tudo é mentira”.

 

Nos meus seis anos de idade, eu ouvia as histórias e pensava, quando poderei contar melhor a história dos jagunços. Cresci ouvindo as várias serrarias serrando, caminhões transportando madeiras. Em 1994, convidei meu colega de escola, Antonio Joel Ribeiro e, o saudoso companheiro Mauri Araújo, momento em que nascia o Grupo Resgate.

 

Naquele tempo, ninguém sabia explicar o porquê da cidade denominar-se CALMON. Alguns diziam que era um caboclo da região, outros afirmavam ser um morador do povoado entre outras afirmações. A partir dali todos os sábados, as pesquisas eram realizadas, filmadora, câmeras fotográficas, blocos de anotações, ferramentas, café, linguiça e, outras guloseimas para passar o dia. Quantas descobertas, natureza, cachoeiras, velhas estações, estradas de ferro, locais onde o guincho adentrava para retirar madeiras. Encontramos munições, espadas entre outros achados.

 

As entrevistas para o Jornal Resgates foram muitas, com o tempo o grupo foi crescendo, atualmente reduzido, continuo com o trabalho, hoje ao lado dos meus filhos e esposa. A nossa história não pode ser esquecida, vem aí o segundo livro deste jornalista, com o nome provisório de: TERRAS CONTESTADAS!

 

Fonte: João Batista Ferreira dos Santos. (JB).




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